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segunda-feira, 6 de abril de 2015

LUTHERIA, ARTE E CIÊNCIA - CONCLUSÃO





NOTA:

Desenvolvo meus estudos para difundir e dividir conhecimento com pessoas interessadas por um futuro mais nobre para a indústria de instrumentos e o oficio da luteria.
As conclusões aqui apresentadas são autodidatas e procedem de pesquisas empíricas desenvolvidas nos últimos 8 anos em minha oficina de luteria de São Paulo.
Não tenho qualquer pretensão em derrogar conceitos já existentes, muito menos atribuir deméritos à tudo que já tenha sido feito com ciência e profissionalismo neste ramo. 
A finalidade é aqui "adicionar".
Sergio Buccini.


REFLEXÃO:

Até quando será correto continuar com as chamadas "madeiras nobres" para nossos instrumentos?

Derrubada de mata nativa
O constrangimento com esta situação, o fato de não pactuar com a agressão à natureza, com a pilhagem da matéria-prima procedente de nossas florestas, aguçou minha busca por novas opções de madeiras que viabilizassem a fabricação de instrumentos e ainda fossem plenamente passíveis de reposição ambiental. Que substituíssem as espécies atuais sem que perdêssemos os resultados já alcançados.  



A quantidade de opções surpreendeu-me.
Trabalhadores e artesãos da madeira precisam compreender o quão melhor será quando pudermos contar com a independência de matéria-prima, sem que tombe novamente uma só arvore sequer pertencente à mata nativa.
Diferente de reflorestamento, que se caracteriza pela "recuperação" do meio ambiente, vejo a solução definitiva no plantio independente ou, fazendas de cultivo de madeira para fins industriais.
Estas lavouras já existem mas carecem de estímulos para garantir a matéria-prima de um futuro próximo, sem danos à natureza.
Trata-se de uma questão de consciência e responsabilidade.



ALTERNATIVAS VIÁVEIS

No Brasil, dentre tantas espécies, contamos com madeiras como a Teca, Cinamomo,  Grevíleas, Pinus Elliotti, excelentes para a finalidade em questão.


Desenvolvem-se fácil e rapidamente sob nosso clima, apresentando rápida secagem após o corte, aspecto agradável além de excelentes propriedades físico - mecânicas para trabalho.
Como estas, muitas outras espécies de características similares, algumas oriundas de famílias nobres como mogno e o cedro, permitem o prosseguir da produção de instrumentos e ainda agregam consciência à nossa causa.
Destaque para a atuação inteligente e meritória de empresas de pesquisa e desenvolvimento na  área de meio ambiente como a Universidade da Floresta, propriedade de Otávio Cafundó.

"...A Universidade da Floresta é uma empresa de pesquisa, desenvolvimento e formação complementar de profissionais da área de meio ambiente, e que também comercializa produtos relacionados às suas atividades tais como materiais didáticos, sementes e mudas nativas, ferramentas e equipamentos de uso profissional. Seu intuito é o oferecer cursos e treinamentos tanto na área técnica quanto na gerencial, a fim de preencher a grande lacuna existente entre o saber acadêmico e a prática profissional, alavancando o ingresso dos alunos no mercado de trabalho." Otavio Cafundó.


http://www.universidadedafloresta.com.br/institucional

Nova área de produção do Viveiro Universidade da Floresta pronta para a nova safra de mudas nativas da temporada 2013/2014!
Para validar a eficácia destas espécies no oficio da luteria foram precisos alguns anos de pesquisas e experimentos científicos, análises criteriosas e muita paciência, que acabaram gerando a construção de instrumentos experimentais, até que adentrássemos o átrio da certeza.
Viver na zona de conforto pode ser cômodo, mas é uma postura extremamente nociva ao desenvolvimento de novos conceitos.





Instrumento experimental, corpo e braço totalmente desenvolvidos em
Eucalyptus Grandis .

MADEIRAS E PROPRIEDADE

Aspectos como tonalidade, amplitude de oscilação de frequências sobre a matéria, resistência mecânica, foram exaustivamente explorados sobre variados tipos de madeiras, sempre mantendo muita atenção para o tipo de corte empregado nos experimentos, pois influem consideravelmente sobre os resultados obtidos. 
Em síntese, não desejo neste instante aprofundar-me no vasto universo da física ou da dendrologia, mas enfatizo a importância de se compreender, distintamente, a verdadeira influência das madeiras sob efeito do fenômeno físico da ressonância no processo de elaboração do instrumento de corpo sólido. No caso, em especial, madeiras alternativas de plantio independente.

Todas as espécies de madeiras, sem exceção, têm suas próprias características físico-orgânicas, representadas por Elementos Anatômicos que classificam, qualificam e definem as propriedades de cada uma delas.
A principal e "mais variável" propriedade da madeira é a densidade, determinada pelo grau de concentração de massa por volume, ou seja: Kg/m³.

Normalmente contamos com densidade Aparente que soma o fator umidade à massa total, e a densidade Básica,  já com o percentual de umidade deduzido do peso bruto.
Quando as características sobre densidades são compreendidas, combinadas entre si, e agregadas proficientemente a outros detalhes fundamentais inerentes ao processo de construção do instrumento, temos a excelência nos resultados sonoros que evidenciam timbres e sustentação, segundo as variáveis em questão. Um axioma que, uma vez aceito e dominado propõe ao artesão a liberdade de escolha da matéria-prima, eliminando a dependência de se trabalhar com madeiras especificas, muitas em processo adiantado de extinção.

Para efeito comparativo, menciono no primeiro grupo abaixo a densidade média "básica" de algumas espécies bem conhecidas para a fabricação de instrumentos, enquanto o segundo grupo, sob o mesmo prisma, agrupa alternativas.

PRIMEIRO GRUPO:

Alder - 450kg/m³r
Swamp ash -  481 a 538kg/m³
Maple 645kg/m³
Mogno de Honduras - 590kg/m³

                                                                                 
              
Pau-Marfim - 730kg/m³
 
Mogno Brasil ( Swietenia macrophylla )- 630kg/m³
                                          
SEGUNDO GRUPO:

                                                 
Cinamomo - 610kg/m³
Grevilea - 590kg/m³

Teca - 660kg/m³



                                   
Eucalyptus grandis - 710kg/m³
Pinus Elioti - 480kg/m³
      

       
  




A FÍSICA E O FENÔMENO RESSONÂNCIA NO INSTRUMENTO DE CORPO SÓLIDO

Definidas as madeiras para corpo e braço através dos testes de combinação das densidades entre si, assim como o padrão de corte, a física entra em ação.
O fenômeno ressonância ocorre quando a frequência de vibração das cordas é idêntica à frequência de vibração contida no conjunto corpo/braço, fazendo com que todo o "sistema" oscile em amplitude máxima de ondas acústicas ou, "energia vibracional".
Como consequência, teremos os sons e seus harmônicos que definem os timbres do instrumento, enquanto a sustentação fica diretamente relacionada ao binômio "velocidade - tempo" de dissipação das ondas.
Quanto mais tempo houver para que se dissipem as ondas, maior será o período de sustentação, ou, a presença do som vivo no instrumento.

Ressonância x Densidade = Energia Vibracional.
Daí a importância das "propriedades da madeira".
Lembrando que, alternando madeiras podemos criar ou simular vários timbres, mas é preciso critério rigoroso para que esta liberdade não comprometa a "sustentação sonora".

Peças e assessórios, se de qualidade, apenas evidenciam estas propriedades.


CONSIDERANDO SOLUÇÕES

Madeira de plantio independente.
Sim, nossas guitarras podem advir desta fonte sem qualquer tipo de risco.
Além das espécies citadas no corpo desta matéria, nas guitarras apresentadas por este projeto também lançamos mão da reciclagem. Usamos restos, sobras úteis de madeiras já desprezadas, refugo, sempre respaldado pela comprovada teoria:
Ressonância x Densidade = Energia Vibracional.

Reciclagem aplicada em grande escala, permite que se faça o tempo necessário para o surgimento de novas áreas de plantio independente, novos programas de sustentabilidade, reflorestamento, recuperando paulatinamente espaços devastados pela execrável ganância do ser humano.
Com isto, damos um basta ao desmatamento e acrescentamos mais virtude,  uma aura mais nobre e inteligente ao nosso trabalho, tanto para a indústria dos instrumentos, como para a arte da luteria.


 
CONCLUSÃO

Graças a Deus, ainda estamos aprendendo.
Gostaria de esclarecer que só estou acendendo uma luz numa sala escura que já estava de portas abertas há muito tempo.
Por experiência posso garantir que todo aquele que pensa que controla, domina e conhece alguma coisa por completo, ainda não despertou, e lá no fundo da alma, convive constantemente com o medo e a incerteza.

Com estudo sério e trabalho duro, através da arte da luteria, 
ofereço o que tenho de melhor para a profissão que deverá prosseguir, mesmo quando eu não mais estiver por aqui.
Terei assim efetivado minha parcela de contribuição para com a obra do Divino, meu tributo a Deus, a quem devo simplesmente tudo.


SERGIO BUCCINI.



Pinus Elliotti
Minha preocupação com o uso indiscriminado das madeiras nobres gerou este estudo que,  por sua vez, deu origem ao nosso mais novo projeto de guitarra.

Dando formas à guitarra
Guitarra finaliza - montagem de pré-teste para gravações

Guitarra finaliza - montagem de pré-teste para gravações
MONTAGEM DE CONFERÊNCIA

FINALIZADA
AGUARDANDO ACABAMENTO
PINTURA CUSTOMIZADA BY MUSICKOLOR BRAZIL
PINTURA CUSTOMIZADA BY MUSICKOLOR BRAZIL




 

















  

































Um comentário:

  1. Olá Sergio. Excelente matéria, como de praxe.

    A pintura influencia na Energia Vibracional nas guitarras elétricas convencionais? Já li algumas matérias mostrando que em instrumentos acústicos, o verniz empregado pode alterar a sonoridade final. E em relação às guitarras elétricas?

    Abraço!

    José Roberto Fernandes

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