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quarta-feira, 3 de abril de 2013

LUTHERIA - ARTE E CIÊNCIA

THANKS FOR WATCH YOUTUBE VÍDEO
http://www.youtube.com/watch?v=q6forHCTNPk

http://www.youtube.com/watch?v=3P4oqcJ95u4

https://www.youtube.com/watch?v=4u2zXGR6syw

https://www.youtube.com/watch?v=gxCR9AdUjgI



Nosso mais recente projeto de guitarra.
Você poderá compreender a verdadeira influência da madeira na construção do  instrumento de corpo sólido, e conhecer a proposta ecológica que expõe um futuro mais autêntico para a arte luteria.
Verá que uma guitarra não precisa ser sofisticada para dar conta do recado.
Apresentamos uma guitarra desenvolvida com critérios, e especialmente dirigida ao público brasileiro, uma homenagem a todos que acreditaram na força de nossa arte.
As conclusões aqui apresentadas, autodidatas, procedem de estudos,  pesquisas e experimentos, desenvolvidos e apurados nos últimos 5 anos em nossa oficina de luteria em São Paulo.
Não há qualquer pretensão de insurgir-se, ou derrogar conceitos já existentes, tampouco atribuir demérito a tudo que já tenha sido feito com ciência e profissionalismo neste ramo.
A finalidade é "acrescentar".

Agradecimentos sinceros aos amigos, músicos guitarristas, os únicos que podem conferir propriedade, autenticando o sucesso de uma verdadeira obra de luteria, e
que, com respeito e consideração,  abraçaram espontaneamente nossa causa desde o princípio.

 Renato George Roscani, João Paulo Araújo, Denis Salgado, e Vinicius Cavalieri.
Eternamente grato.
S.B



Guitarra:

Sempre foi um tema fascinante, e igualmente polêmico.
Durante 23 anos como luthier profissional em São Paulo, e 44 desde minha primeira guitarra, pude testemunhar muitos comentários e opiniões à respeito deste assunto. Alguns construtivos, outros absolutamente perdidos e incoerentes
Por considerá-lo um misto entre "arte e ciência", em constante estado de aprimoramento, acho prudente que saibamos separar aquilo que tem fundamento do resto que não passa de insensatez.
Depois disto, que cada um abrace sua crença.
Afinal conhecimento só é legal quando você tem utilidade prática para ele e ainda consegue dividir, ajudando outras pessoas com isto. Do contrário é bagagem inútil.

A Arte:

É preciso conhecer, entender e dominar com proficiência os temas que envolvem esta profissão.
Algumas ciências aplicadas, como  física, matemática e química, aprendemos por meio de cursos especializados, mas na arte da luteria, só a experiência, trabalho duro, fracassos, vitórias, persistência, sacrifício e humildade maturam e autenticam o artista-profissional. Diploma neste ofício, só a escola da vida nos confere, e por meio de anos e anos de muito empenho e trabalho duro.
É sobre isto que aqui falamos.
Na minha opinião, Luteria é aprendizado e exercício diário. Combinação perfeita entre arte e ciência, que exige aprimoramento constante, ad eternum.
Empírica, porque se fundamenta em experimentos científicos, mas igualmente intuitiva; daí a arte. Algo que emerge da alma, inspirado pelo Divino.
Mas, para que se eliminem as discordâncias, é imperativo que primeiramente entendamos os princípios funcionais de uma guitarra elétrica de forma não subjetiva, por meio de princípios físicos que alicerceiam à arte assim como o restante do mundo que nos cerca.

A Ciência:

Em síntese, a física explica o conceito da guitarra sólida, através do fenômeno da ressonância. 
Dá-se o fenômeno quando a frequência de vibração das cordas for idêntica a frequência de vibração contida no conjunto corpo/braço, fazendo o sistema todo oscilar em amplitude máxima de ondas acústicas ou, "energia vibracional".
Como consequência, teremos os sons e seus harmônicos que definem os timbres do instrumento, enquanto a sustentação ficará diretamente relacionada à velocidade/tempo de dissipação das ondas.
Quando mais tempo houver para que se dissipem as ondas, maior será o período de sustentação, a presença do som vivo no instrumento.
Daí a importância das "propriedades da madeira", como veremos.
E os captadores?
Aos captadores cabe a função da leitura do processo em si.

Madeira, a matéria prima:

Com 19 anos de estudo autónomo sobre "madeiras" descarto a insana pretensão de mergulhar fundo no tema, que é vasto, denso, subdividido, repleto de considerações e particularidades. 
Todas as espécies de madeiras têm suas próprias características físico/orgânicas, representadas por Elementos Anatômicos que, classificam, qualificam e definem as propriedades de cada uma delas.
A principal, e "mais variável" propriedade da madeira, é a densidade,  grau de concentração de massa em determinado volume, ou seja, kg/m³. 
Tais características e propriedades, quando "elaboradas" e agregadas a outros detalhes importantes inerentes ao processo de construção do instrumento, definem os resultados sonoros almejados para o produto, e apontam as diferenças entre timbres e sustentação, segundo as variáveis em questão, como representado por meio de três pequenos exemplos, a seguir:

Exemplo A:

Três blocos distintos da madeira X, da mesma espécie , e de idênticas dimensões.
Se, em função da origem, período de corte e zona de plantio, as respectivas densidades forem desiguais, constataremos disparidade de energia vibracional entre eles no decurso do processo físico de ressonância.
Para que fique mais fácil de se compreender na prática:
Você entra numa loja e se depara com uma parede enorme, repleta de guitarras idênticas. Mesma marca, mesma série, mesmo ano, compostas pelas mesmas combinações entre madeiras, mesmos pick-ups, diferenciadas apenas pela cor.  Passa 3 horas experimentando cada uma delas para achar "aquela", cujos timbres e sustentação superaram expectativas.
Por que? Porque madeira é tudo igual?
Para mensurar esta verdade, não é preciso grande aparato tecnológico, pois já viemos equipados de fábrica com um bastante bom; nosso próprio sistema auditivo, que quando acompanhado por uma boa dose de bom senso faz toda diferença.
Atualmente, uma linha de produção não permite certos requintes, mas técnicas como a centenária "Tap Tuning", nos possibilitam prever e imputar qualidade tonal ao instrumento antes mesmo de iniciá-lo.
Para os que ainda não se utilizam desta técnica, ou nunca ouviram falar,  recomendo uma rigorosa pesquisa sobre o tema.
Isto sim pode representar uma "novidade importante" para os
aficionados.

Exemplo B:

Dois blocos de madeira X, oriundos da mesma árvore, de idênticas dimensões, mas de pontos diferentes.
Caso o corte da base apresente mais densidade que o corte do topo, ao usá-los indiscriminadamente, ignorando diferenças de formação anatômica, teremos respostas de dinâmica tonal desiguais entre eles, respectivamente.
Todos já devem ter visto isto; instrumentos idênticos da mesma marca, mesma família de madeira. Um leve, outro ligeiramente mais pesado; mas que apresentam timbres e sustentação diametralmente desiguais.

Exemplo C: ( Nosso Projeto )

Três guitarras idênticas, equipadas com a mesma captação.
A primeira com Maple e Alder, a segunda com Cedro e Pinho (Guitarra do Vídeo) e a terceira em Cedro e Marfim.
Neste caso, mesmo que diferentes entre si, se a seleção das madeiras e a interpretação das características físico/orgânicas de cada bloco empregado, for efetuada com critérios científicos, é possível, caso assim se pretenda, reproduzir-se resultados sonoros idênticos entre os três instrumentos.
Reforçando: caso assim de pretenda! Que fique bem claro.
Embora, por princípio, cada madeira tenha sua própria "voz", o que define a identidade sonora do instrumento são as propriedades e características físico/orgânicas das espécies empregadas e a combinação inteligente entre elas e suas respectivas densidades. 
O restante fica por conta do esmero da construção.
O grande segredo dos melhores instrumentos da história da humanidade, esta representado pelo fator "DENSIDADE".
Quando se domina a conjugação destes itens e fatores, o céu é o limite. Conseguimos até replicar e melhorar os timbres e a sustentação de um clássico do mercado usando madeiras totalmente diferentes das originais de fábrica.
Quem tocou nas guitarras de Sergio Buccini, principalmente as feitas de 12 anos pra cá, conhece esta verdade bem perto.
Resumindo nossa tese; não são todas iguais, mas, qualquer boa madeira, desde que avaliada e trabalhada sob estes princípios científicos, poderá gerar grandes instrumentos, ou seja, não há mais motivos para que continuemos reféns das espécies já conhecidas.

Seleção de madeiras feliz  +  construção apurada =  instrumento rico.
Seleção de madeiras infeliz  +  construção apurada = instrumento pobre. Neste caso, se suficiente, é hora de se pensar em captadores que possam remediar a situação.

O Futuro da Madeira na Guitarra:

Madeira de reflorestamento é a nova ordem, solução indiscutível, fato amplamente ventilado por todo planeta. Mas paralelamente, ao meu ver, ainda há um passo bem mais importante para se dar; Precisamos aprender a "reciclar" aquilo que já se encontra disponível. 
Restos, sobras úteis e legais. Com isto, damos um basta ao desmatamento. Ganhamos tempo para que surjam novas áreas de plantio, plantio alternado, programas de sustentabilidade, e até para que se renovem os espaços devastados pela execrável ganância do ser humano.

Projeto e Ecologia:

Com desenho próprio, que unifica plástica à performance, de dimensões concentradas, e com foco nos segredos da densidade, o modelo objetiva explorar ao máximo as vantagens dos conceitos físicos aplicados. 
No guitarra do vídeo, temos: (https://www.youtube.com/watch?v=4u2zXGR6syw)
Braço em Cedro (480kg/m3 a 14% de umidade) e corpo em Pinus Elliottis (400kg/m3 a 14% de umidade), ainda sem acabamento de pintura, escala em Rosewood, 22 trastes jumbo-médios que depuram os timbres, hardware Gotoh, captação tipo Paf produzidos artesanalmente, com head-stock 4x2 escolhido por voto popular via FaceBook.
Tudo isso feito com "madeira de refugo".
Desprovida de complicações, com tudo simples, mas dizendo o que deve dizer uma boa guitarra.
Em visitas à diversas carpintarias do estado, empenhei-me pela procura de sobras, restos legais de madeiras brasileiras que não teriam qualquer utilidade prática nestes estabelecimentos, prontas para servir como lenha, literalmente. 
O demais resumiu-se à secagem, usinagem de reaproveitamento e aplicação dos conceitos técnicos dos quais falamos.
A iniciativa acrescenta mais sentido ao exclusivismo inerente à arte da luteria.
Por ser impossível repetir as madeiras, jamais haverá uma guitarra exatamente igual a outra, enquanto a excelência dos resultados, com base em nossos estudos aplicados, será constante.
Pessoalmente não acredito mais na antiga proposta da guitarra sobre encomenda.
A espera gera expectativa e ansiedade, predecessoras naturais de uma provável frustração para ambas as partes.
Sou adepto do "experimentou, gostou, levou". Rápido, prático e extremamente honesto.
Escapando do corporativismo sem conspurcar a essência da arte.
Como felizmente tudo na vida se renova a cada instante, creio que a proposta para a arte da luteria também deva submeter-se a uma transformação, para o bem de sua própria sobrevivência.

O Desafio: Desmistificar:

Mostrar que, aquilo que define uma grande guitarra - ou contrabaixo - não é a espécie, a nobreza, o exotismo ou o luxo da madeira, tampouco a alta tecnologia agregada e sim o simples, bem disposto e resolvido com razões fundamentadas, sem dependência de velhas fórmulas que aprisionam a criatividade.
Repito: O nome científico, o tipo da madeira utilizada não importa. O que realmente conta são as propriedades e características físico/orgânicas da madeira elaborada e suas combinações, tudo isto somado à uma ciente mão de obra.
Este é o segredo. Isto é arte.

A Mensagem:

Por experiência posso garantir que todo aquele que pensa que controla, domina e conhece alguma coisa por completo, ainda não despertou, e lá no fundo da alma, convive constantemente com o medo e a incerteza.
Graças a Deus, ainda estamos aprendendo.
Gostaria de esclarecer que só estou acendendo uma luz numa sala escura que já estava de portas abertas. Faz tempo.
Com estudo sério e trabalho duro, através da arte da luteria, ofereço o que tenho de melhor para a profissão que deverá prosseguir, mesmo quando eu não mais estiver por aqui.
Terei assim efetivado minha parcela de contribuição para com a obra do Divino, meu tributo a Deus a Quem devo simplesmente tudo.

Para Meditar:

Quem pensa ou fala demais, não tem tempo para fazer.
Faça sem medo de errar.
Se vc. não "faz", as coisas não vão acontecer só porque vc. "acha".

SERGIO BUCCINI .




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